Uma única conversa. Uma resposta educada. Um limite estabelecido com clareza. Ainda assim, a violência aconteceu.
Internada há cinco dias em estado gravíssimo, Alana Anísio Rosa, de 20 anos, foi esfaqueada dentro de casa, no bairro Galo Branco, em São Gonçalo. O suspeito do ataque é o vizinho Luiz Felipe Sampaio, de 22 anos, que foi preso no mesmo dia do crime. O caso é acompanhado pela 73ª DP (Neves).
Meses antes do ataque, Alana recebeu flores e chocolates de forma anônima durante cerca de quatro meses. Em dezembro, o autor dos envios decidiu se identificar. Foi nesse momento que ocorreu a única troca de mensagens entre os dois, por meio do Instagram.
Na conversa — a primeira e única registrada entre eles — Alana agradeceu os presentes, reconheceu o gesto, mas afirmou não ter interesse em iniciar qualquer relacionamento. Disse estar focada nos estudos e desejou feliz Natal. A resposta dele indicava aparente compreensão, mencionava amizade e afirmava que aquela seria a última entrega.
Não houve discussão. Não houve ofensa. Não houve provocação. Houve apenas uma recusa clara.
Segundo a mãe da jovem, Jaderluce Anísio, a orientação foi para que a filha fosse sincera e respeitosa. “Ela disse a verdade com educação. Disse que não queria e seguimos nossas vidas”, afirmou.
O episódio evidencia uma realidade que se repete em diferentes contextos no país: a dificuldade de parte dos homens em aceitar a negativa feminina como um limite definitivo. Especialistas em violência de gênero apontam que muitos casos graves têm origem justamente na não aceitação do “não” — ainda que ele seja dito de forma cuidadosa e respeitosa.
O Brasil registra números elevados de violência contra a mulher, incluindo casos de feminicídio motivados por rejeição ou sentimento de posse. Em 2021, um episódio semelhante ocorreu em Niterói, quando uma jovem de 22 anos foi morta a facadas após recusar um envolvimento afetivo com um colega.
O caso de Alana reforça uma mensagem central nas campanhas de conscientização: recusa não é provocação, não é desafio, não é negociação. “Não” é uma resposta completa.
Enquanto a investigação segue em andamento, familiares aguardam pela recuperação da jovem. O episódio reacende o debate sobre a necessidade de reforçar, de forma contínua, que consentimento e respeito são pilares fundamentais nas relações.