Duas mortes registradas no mesmo dia no Pronto-Socorro Infantil Darcy Ribeiro, no bairro Zé Garoto, em São Gonçalo, levantaram denúncias de possíveis falhas no atendimento médico. As vítimas foram Mirella Rodrigues da Silva, de 2 anos, e Helena Vitória Gomes, de apenas 1 mês e 10 dias. Os casos aconteceram em 14 de junho, com intervalo de poucas horas.
Mirella morreu às 8h52, depois de ter recebido alta durante a madrugada e retornado à unidade após piora no quadro de saúde. Já Helena faleceu às 13h55, após sucessivas passagens por unidades de saúde e uma nova internação no mesmo hospital. As duas famílias afirmam que decisões tomadas durante os atendimentos precisam ser investigadas.
Caso Mirella
Segundo Maria Clara Ferreira, mãe de Mirella, a criança deu entrada no Pronto-Socorro Infantil na tarde de 13 de junho com febre alta, sonolência e abatimento. Durante o atendimento, a menina sofreu uma convulsão, foi encaminhada para a sala vermelha, recebeu medicações, realizou exames e permaneceu em observação.
Apesar da preocupação da família com o estado da bebê, Mirella recebeu alta às 1h13 da madrugada do dia 14. De acordo com a mãe, o médico informou que a criança apresentava uma infecção, sem apontar a origem, e prescreveu medicamentos para uso em casa.
“Ele falou que ela estava com uma infecção. Como a gente não sabia onde era essa infecção, ele me liberou para ir para casa com medicamentos. Minha filha estava prostrada, só dormia. Quem estudou para saber se ela podia ou não ir embora era o médico, não eu”, afirmou Maria Clara.
Pouco tempo depois da alta, Mirella voltou a convulsionar. A família retornou imediatamente ao pronto-socorro, onde a criança foi novamente levada para a sala vermelha. O quadro se agravou rapidamente.
A mãe relata que a filha passou a apresentar dificuldade para respirar, ficou muito pálida e, pouco antes da parada cardiorrespiratória, começou a espumar pela boca e pelo nariz.
“Eu gritava para chamarem o médico. Clamei muito a Deus para salvar minha filha. Depois me disseram que conseguiram entubá-la, mas, no meu coração de mãe, eu já sabia que ela não estava mais ali”, disse.
De acordo com a certidão de óbito, a causa da morte foi sepse não definida. A família aguarda a liberação do prontuário médico para decidir quais medidas serão tomadas.
“Minha filha entrou naquele hospital viva. Ela não estava bem, mas tinha que sair de lá bem. Vou lutar por justiça até o fim da minha vida”, declarou a mãe de Mirella.
Caso Helena
No caso de Helena Vitória Gomes, a mãe, Ana Vitória Gomes, relata que os problemas começaram ainda no pré-natal. Após o nascimento, a bebê precisou permanecer na UTI neonatal por ter aspirado líquido durante o parto. Dias depois, recebeu alta.
Desde então, segundo a família, Helena passou por diferentes unidades de saúde até retornar ao Pronto-Socorro Infantil Darcy Ribeiro, onde foi internada com diagnóstico de bronquiolite aguda. Durante a internação, os parentes afirmam que a bebê apresentava febre persistente, excesso de secreção e dificuldade para respirar.
“Perguntei várias vezes se era só bronquiolite ou se ela também estava com pneumonia. A médica respondeu que não sabia exatamente o que ela tinha, mas que no sistema aparecia apenas bronquiolite aguda”, contou Ana Vitória.
Ainda de acordo com a mãe, o estado de saúde da filha piorou ao longo da manhã de 14 de junho. Horas depois, a equipe médica informou que seria necessário realizar a intubação da criança.
“Eles falaram que precisavam entubar porque ela não estava bem. Depois vieram dizer que tentaram reanimá-la, mas não conseguiram. Para mim, naquela intubação, eles não salvaram minha filha. Eles perderam minha filha”, afirmou.
Helena morreu às 13h55. As famílias das duas crianças informaram que aguardam os prontuários médicos completos e outros documentos para formalizar denúncias junto aos órgãos competentes.
Parecer da Prefeitura
Em nota sobre o caso de Mirella, a Prefeitura de São Gonçalo informou que o Pronto-Socorro Infantil tomou conhecimento das alegações e que os fatos serão analisados pelos setores competentes, com base nos registros assistenciais e demais documentos pertinentes.
A Prefeitura também afirmou que, em respeito ao sigilo médico e à legislação vigente, não pode divulgar informações sobre o atendimento ou o prontuário da paciente. Disse ainda que o PSI não emite conclusões antes da finalização das apurações internas e reafirmou compromisso com a assistência à população, os protocolos assistenciais e a transparência na análise das ocorrências envolvendo a unidade.
Questionada também sobre o caso de Helena, registrado no mesmo dia, a Prefeitura não se manifestou.