O movimento intenso nas primeiras horas da manhã já antecipa a rotina de risco nas rodovias federais que cortam o Rio de Janeiro. Na BR-101, especialmente no trecho entre São Gonçalo e Niterói, carros, motos, ônibus e caminhões dividem espaço em pistas cada vez mais congestionadas. Em meio a esse cenário, a Polícia Rodoviária Federal alerta para o aumento dos acidentes e para comportamentos que seguem colocando vidas em risco, como o uso do celular ao volante, o excesso de velocidade e a falta de atenção.
Entre janeiro e abril deste ano, as rodovias federais fluminenses registraram 2.100 acidentes, segundo dados da PRF. No período, 2.495 pessoas ficaram feridas e 122 morreram. A média é de mais de 17 acidentes por dia. Em comparação com o mesmo período de 2025, quando foram contabilizados 2.038 registros, houve crescimento de 3%.
A preocupação ganha ainda mais força durante o Maio Amarelo, campanha nacional de conscientização no trânsito, que neste ano tem como tema “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas”. O alerta ocorre em um momento de aumento das ocorrências envolvendo motociclistas, principalmente em áreas urbanas da Região Metropolitana.
A BR-101 concentra parte expressiva desse quadro. Somente nos quatro primeiros meses de 2026, foram registrados 827 acidentes na rodovia, que liga municípios como Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Campos dos Goytacazes.
Os dados também mostram que os acidentes se concentram em cidades de grande fluxo urbano. Duque de Caxias lidera o ranking estadual, com 266 ocorrências. Em seguida aparecem Nova Iguaçu, com 154; Angra dos Reis, com 146; Rio de Janeiro, com 140; e Campos dos Goytacazes, com 120. São Gonçalo ocupa a sexta posição, com 111 registros, enquanto Niterói aparece em décimo lugar, com 79.
Apesar de os números representarem apenas o primeiro quadrimestre, eles mantêm o padrão observado em 2025. No ano passado, o estado contabilizou 6.430 acidentes em rodovias federais, com 7.661 feridos e 330 mortes.
Entre as principais causas apontadas pela PRF estão a ausência de reação do condutor, com 372 registros, a reação tardia ou ineficiente, com 329, o acesso à via sem observar outros veículos, com 151, falhas mecânicas ou elétricas, com 137, e a falta de distância segura, com 128 ocorrências.
Na prática, esses fatores costumam estar associados a distrações, mudanças bruscas de faixa, uso de celular, cansaço e imprudência. O resultado aparece diretamente nos tipos de acidentes mais frequentes. As colisões traseiras lideram os registros, com 475 casos entre janeiro e abril, seguidas por colisões laterais no mesmo sentido, quedas de ocupantes, colisões transversais e tombamentos.
Na Ponte Rio-Niterói, a situação também preocupa. Dados da Ecovias Ponte indicam aumento de 17% no número de acidentes entre janeiro e abril deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025. Foram 205 ocorrências em 2026, contra 175 no ano passado.
Mais da metade dos acidentes na Ponte envolveu motociclistas. Todas as vítimas graves registradas no período pertenciam a esse grupo. Dos três mortos contabilizados neste ano, dois estavam em motocicletas. Segundo a concessionária, o perfil predominante é de jovens que trabalham com aplicativos de entrega e transporte.
Os horários de pico concentram os maiores riscos. As ocorrências são mais frequentes entre 6h e 10h, no sentido Rio, e entre 16h e 20h, no sentido Niterói, justamente nos períodos de maior pressão sobre o trânsito metropolitano. Entre as causas apontadas estão o uso do celular, o excesso de velocidade e as trocas de faixa sem sinalização.
Dados do Detran-RJ também ajudam a dimensionar a violência no trânsito. Em 2025, o estado registrou 29.580 vítimas de acidentes, sendo 2.375 mortes e 27.205 feridos. A maior incidência ocorreu entre homens de 18 a 39 anos, faixa etária comum entre motociclistas profissionais e trabalhadores de aplicativos.
Diante do cenário, concessionárias e órgãos públicos intensificaram ações educativas do Maio Amarelo em diferentes regiões do estado. A Ecovias Ponte realiza atividades na Praça do Pedágio, Caminho Niemeyer, Praça da Apoteose e Orla de Icaraí, com simuladores de impacto, orientações a motociclistas e abordagens educativas em parceria com Detran, PRF, ANTT, NitTrans e CET-Rio.
A Arteris Fluminense também promove ações na BR-101 Norte, com atividades em cidades como Itaboraí, São Gonçalo, Niterói e Casimiro de Abreu. A campanha da concessionária usa o slogan “Quem não é visto, faz falta”, em referência às vítimas da violência no trânsito.
O Código de Trânsito Brasileiro prevê punições para condutas recorrentes nas estradas. Dirigir manuseando o celular é infração gravíssima, com multa de R$ 293,47 e sete pontos na CNH. O excesso de velocidade pode gerar multas que variam de R$ 130,16 a R$ 880,41, além da suspensão do direito de dirigir quando o limite é ultrapassado em mais de 50%.
Trocar de faixa sem sinalizar, não manter distância segura, pilotar sem capacete, dirigir sob efeito de álcool e não usar cinto de segurança também estão entre as infrações previstas pela legislação.
Enquanto campanhas educativas tentam mudar comportamentos, os números reforçam uma realidade persistente: grande parte dos acidentes está ligada a falhas humanas. Nas rodovias movimentadas do Rio, uma distração de poucos segundos pode transformar deslocamentos comuns em tragédias permanentes.