Mensagens e relatos da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, revelam um histórico de medo, tensão e violência psicológica antes de sua morte, ocorrida em 18 de fevereiro, no apartamento onde vivia no bairro do Brás, região central de São Paulo.
De acordo com a investigação, Gisele descrevia o comportamento do marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, como marcado por ciúmes extremos. Em uma das mensagens, a policial afirmou que o companheiro “ficava cego” e chegou a dizer: “qualquer hora me mata”. Para o advogado da família, Miguel Silva, o caso configura uma “tragédia anunciada”.
Em conversas com colegas, a vítima relatou o clima de constante ameaça dentro da relação. Em um dos trechos, afirmou que a situação poderia chegar a um ponto de sobrevivência: “ou ele me mata ou eu mato ele para me proteger”. Em outras mensagens, também denunciou agressões físicas, incluindo um episódio em que teria sido atingida no rosto durante uma discussão.
Segundo os autos, sempre que Gisele mencionava a possibilidade de separação, o oficial reagia com chantagens emocionais. Em um dos episódios investigados, ele teria enviado um vídeo chorando, com uma arma apontada para a própria cabeça, ameaçando tirar a própria vida caso fosse deixado. A defesa do tenente-coronel afirma que a gravação teria sido produzida com uso de inteligência artificial.
Dias antes da morte, a policial buscou ajuda da família. Em ligação aos pais, demonstrou desespero e disse não suportar mais a pressão psicológica. Familiares já temiam pelo desfecho do relacionamento e chegaram a alertá-la sobre o risco de perseguição e violência.
Mesmo diante do cenário, Gisele afirmou que pretendia seguir com a separação. A reação do companheiro, segundo registros, foi imediata e categórica: “jamais, nunca será”.
O tenente-coronel nega as acusações e sustenta que a esposa tirou a própria vida após uma crise no relacionamento. Segundo sua versão, no dia do ocorrido, o casal discutiu após ele comunicar a intenção de se separar. Ele afirma que, ao se ausentar por alguns instantes, ouviu um disparo e encontrou Gisele caída, com a arma em mãos.
A defesa também tenta explicar pontos considerados suspeitos pela investigação, como a demora para acionar socorro, o fato de o oficial ter tomado banho após o ocorrido e contradições em seu depoimento. Ele nega qualquer agressão e afirma ser alvo de acusações injustas.
Apesar disso, o Ministério Público aponta inconsistências na versão apresentada e sustenta que há indícios de feminicídio, com possível tentativa de simulação de suicídio. O tenente-coronel foi preso no dia 18 de março, suspeito de feminicídio e também por obstrução da Justiça. A análise pericial, aliada a depoimentos e mensagens, segue sendo peça central para o andamento do caso.