Novos elementos apresentados pela defesa da família da soldado da Polícia Militar Gisele Santana, de 32 anos, encontrada morta com um tiro na cabeça no mês passado, lançam dúvidas sobre as circunstâncias da morte da policial em São Paulo. Mensagens enviadas por ela a uma amiga e um áudio encaminhado ao pai indicam que a militar relatava medo do marido, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, e planejava deixar o apartamento onde morava com ele.
Nas conversas, segundo os advogados da família, Gisele descrevia episódios de ciúmes excessivos por parte do companheiro. Em um dos trechos, ela afirma que o marido ficava “cego de ciúmes” e chegou a escrever: “Qualquer hora ele me mata”. Para os familiares, o conteúdo reforça a versão de que o relacionamento era marcado por tensão e conflitos.
Em depoimento à polícia, a mãe da policial também afirmou que a filha enfrentava restrições impostas pelo marido. Segundo ela, Gisele era proibida de usar batom, salto alto e até perfume. A família já havia relatado anteriormente que o casal vivia um relacionamento conturbado.
Além das mensagens, a defesa apresentou um áudio enviado pela policial ao pai poucos dias antes da morte. Na gravação, Gisele pede ajuda para encontrar uma nova casa, de preferência próxima à residência dos pais, para facilitar a rotina de trabalho e os cuidados com a filha de 7 anos.
— Pai, para mim é melhor aí, entendeu? Quanto mais perto daí, melhor. De manhã eu vou sair muito cedo para trabalhar e vou ter que deixar a [nome da criança] dormindo aí — diz a policial na mensagem de voz.
Apesar dos novos elementos divulgados pela família, a defesa do tenente-coronel afirma que ainda não teve acesso aos arquivos apresentados e mantém a versão de que a morte foi resultado de suicídio.
O caso ocorreu no apartamento onde o casal morava, no bairro do Brás, região central de São Paulo. Segundo o relato do oficial, ele acordou por volta das 7h e foi até o quarto onde Gisele dormia. De acordo com ele, os dois estavam dormindo em quartos separados havia cerca de oito meses. O tenente-coronel afirmou que, naquele momento, sugeriu que o casal formalizasse a separação.
Segundo o depoimento, Gisele teria reagido de forma exaltada, empurrado o marido para fora do quarto e batido a porta. O oficial disse que foi tomar banho e que, enquanto estava no banheiro, ouviu um disparo. Ao sair, afirmou ter encontrado a esposa caída no chão, com sangue ao redor da cabeça.
Ele declarou ainda que abriu a porta do apartamento para “dar transparência” à situação e ligou para os serviços de emergência, afirmando ter acionado inicialmente o Corpo de Bombeiros, depois o Samu e a polícia.
No entanto, relatos de testemunhas e registros telefônicos levantaram questionamentos durante a investigação. Uma vizinha afirmou ter acordado às 7h28 após ouvir um único disparo vindo do apartamento. Já registros indicam que a primeira ligação feita pelo oficial foi para a Polícia Militar às 7h57. Em seguida, às 8h05, ele entrou em contato com o Corpo de Bombeiros. As equipes de socorro chegaram ao local às 8h13.

Durante entrevista à TV Record, o tenente-coronel questionou a versão apresentada pela vizinha e afirmou não saber se ela poderia ter confundido o horário. Ele também disse que não teria motivo para mentir.
Socorristas que atenderam a ocorrência relataram à polícia que conseguiram reanimar a policial ainda no apartamento antes de levá-la ao hospital. Um dos profissionais afirmou ter estranhado a posição da arma, que estaria encaixada na mão da vítima de forma incomum para casos de suicídio, e decidiu fotografar a cena.
Outros detalhes também passaram a ser analisados pelos investigadores. Segundo depoimentos, o sangue da vítima já estaria parcialmente coagulado e o cartucho da bala não foi localizado no local. Além disso, apesar de afirmar que estava no banho quando ouviu o disparo, testemunhas disseram que o tenente-coronel estaria seco e que não havia água espalhada no chão do apartamento.
Às 8h55, Gisele foi retirada do prédio ainda com vida em uma maca e encaminhada para atendimento médico. Imagens registradas no local mostram o oficial sentado no corredor do edifício enquanto os socorristas realizavam o resgate.
Testemunhas também relataram que, após a ocorrência, o tenente-coronel teria tomado banho novamente, mesmo após orientações para não alterar a cena. Policiais militares que participaram do atendimento disseram que ele retornou com forte cheiro de produto químico.
O oficial afirmou posteriormente que estava sob forte estresse e que sua pressão arterial chegou a 18 por 20 após a morte da esposa. Segundo ele, alguém teria sugerido que tomasse um banho quente.
Outro ponto investigado envolve a limpeza do apartamento horas após o ocorrido. De acordo com testemunhas, três policiais militares foram até o imóvel no fim da tarde do mesmo dia para limpar o local. Registros apontam que elas chegaram ao prédio por volta das 17h48 e entraram no apartamento acompanhadas por uma funcionária do edifício.
O tenente-coronel afirmou que a perícia já havia liberado o imóvel e que a limpeza teria sido determinada por um comandante da corporação para preservar a família da vítima, que pretendia retirar pertences pessoais do apartamento.
Inicialmente registrado como suicídio, o caso passou a ser tratado como morte suspeita após a exumação do corpo e a realização de um novo laudo necroscópico. O exame apontou lesões no rosto e no pescoço da policial e indicou a possibilidade de que ela tenha desmaiado antes do disparo fatal, além de não apresentar sinais de defesa.
A investigação é conduzida pelo 8º Distrito Policial do Brás e também pela Corregedoria da Polícia Militar. O tenente-coronel foi afastado das funções no dia 3 de março, a pedido próprio, enquanto os procedimentos seguem em andamento.
Em nota, a Polícia Militar afirmou que não compactua com irregularidades ou desvios de conduta e que, caso sejam confirmadas ilegalidades, todas as medidas cabíveis serão adotadas. O Tribunal de Justiça de São Paulo informou que o caso tramita sob sigilo.