Quem passa pela BR-101, na altura do bairro Porto do Rosa, em São Gonçalo, talvez não imagine que, ali perto, em uma rua simples e sem saída, Vinícius Júnior deu seus primeiros chutes na bola. Antes dos estádios lotados da Europa, dos títulos pelo Real Madrid e da camisa da Seleção Brasileira, Vini era apenas um menino que corria descalço pelas ruas da comunidade, sonhando em ser jogador.
Após ser anunciado pelo técnico Carlo Ancelotti entre os 26 convocados para a Copa do Mundo, o atacante emocionou moradores da cidade ao publicar nas redes sociais: “Aquele menino que jogava descalço em São Gonçalo chegou de novo. Copa do Mundo é o auge da carreira de qualquer jogador e vou pra minha segunda”.
A frase reacendeu memórias de quem acompanhou de perto o início da trajetória do atleta. Durante a infância, Vinícius morou com os pais e a avó em uma casa simples no Porto do Rosa. A rotina era parecida com a de muitas crianças da região: escola, brincadeiras na rua e muito futebol.

A moradora Cristiane Ramos, de 48 anos, lembra que o talento do menino já chamava atenção. Segundo ela, Vini costumava brincar na rua com outras crianças quando voltava para casa, mesmo já treinando na base do Flamengo. “Já dava para ver que ele tinha alguma coisa diferente. Parecia que já tinha nascido pronto para jogar futebol”, contou.
Os primeiros passos no esporte passaram por campos de bairro, pelo Colégio Odete São Paio, pela escolinha do Flamengo no Mutuá e pelo futsal do Canto do Rio, em Niterói. Foi na escolinha rubro-negra em São Gonçalo que Carlos Eduardo Abrantes Beraldini, o Cacau, percebeu o talento incomum do garoto.
Coordenador da escolinha desde 2001, Cacau conheceu Vinícius em 2006, quando ele chegou levado pelo pai, com apenas 5 anos. O treinador lembra que, desde cedo, o menino demonstrava técnica, velocidade e coragem para tentar de novo quando errava uma jogada. Aos 10 anos, Vini foi levado para uma avaliação na Gávea, foi aprovado e, aos 13, passou a se dedicar integralmente ao Flamengo.
Apesar do destaque nos gramados, na escola Vinícius era um aluno comum, com desempenho regular. A diferença estava na dedicação ao futebol. Enquanto muitos sonhavam em jogar profissionalmente, ele transformava esse sonho em rotina.

Mesmo depois de avançar nas categorias de base do Flamengo, Vini manteve o vínculo com a escolinha onde começou. Segundo Cacau, o jogador retornava sempre que podia, levava troféus, conversava com as crianças e dividia suas conquistas. A última visita aconteceu pouco antes da transferência para o Real Madrid, quando uma fila de fãs chegou a virar o quarteirão.
Hoje, a história de Vinícius Júnior segue inspirando crianças do Porto do Rosa e de outras comunidades de São Gonçalo. No campo administrado pela Associação de Moradores, meninos como Riquelme Soares, de 10 anos, e Pedro Henrique, de 12, treinam com o sonho de seguir os passos do atacante.
Para Cacau, a trajetória do ex-aluno representa orgulho e esperança. “Ver aquele menino sonhador realizando tudo aquilo que sonhou mostra para outras crianças que também é possível”, afirmou.
No Porto do Rosa, a rua sem saída continua lá. Os campos de terra também. E, para muitos garotos que treinam todos os dias na região, a caminhada de Vini Jr. mostra que o caminho até uma Copa do Mundo pode começar exatamente onde tudo parece pequeno demais para sonhos tão grandes.