O choro de crianças na entrada da Creche Cantinho do Céu, no bairro Pacheco, em São Gonçalo, passou a ser visto de outra forma por um grupo de pais. O que antes parecia apenas dificuldade de adaptação à rotina escolar se transformou em preocupação após a circulação de vídeos, áudios e relatos envolvendo suspeitas de agressões físicas, humilhações, negligência e falta de estrutura dentro da unidade particular.
Segundo mães ouvidas pela reportagem, algumas crianças passaram a demonstrar medo de frequentar a creche, apresentaram mudanças bruscas de comportamento e, em alguns casos, teriam voltado para casa com marcas pelo corpo. As denúncias ganharam força depois que testemunhas começaram a relatar situações que afirmam ter presenciado no local.
Conversas compartilhadas entre responsáveis mencionam tapas na cabeça, puxões de cabelo, crianças colocadas de castigo e episódios considerados graves de negligência. Uma das mães contou que o filho passou a chorar com frequência no momento de ser deixado na unidade. Inicialmente, ela acreditava se tratar de estranhamento com a escola, mas passou a desconfiar após a criança dizer que uma funcionária teria puxado sua orelha e agredido o irmão mais novo.
Em outro relato, uma testemunha afirma ter visto uma criança receber “duas chineladas na cabeça”. Na sequência, segundo a mesma pessoa, outra criança teria sido puxada pelas tranças. Há ainda denúncias envolvendo uma criança autista que aparece em vídeo recebendo um tapa na cabeça. Em outro registro enviado por mães, uma criança teria sido sufocada com um travesseiro.
Além das suspeitas de agressão, os responsáveis também relatam preocupação com possíveis situações de negligência. Uma mãe afirmou ter recebido o filho muito sonolento e sem forças para ficar em pé em um dia da semana. Segundo ela, o comportamento chamou atenção porque a criança costumava acordar disposta e sorridente em casa.
As denúncias também apontam problemas estruturais na creche. Ex-funcionários e testemunhas afirmam que o espaço não oferecia condições adequadas para receber crianças pequenas. Entre os relatos estão falta de colchões, brinquedos, itens básicos de higiene e produtos de limpeza. Uma testemunha disse que crianças dormiam em lençóis improvisados no chão e que bebês não tinham colchões adequados para descanso.
Ainda segundo o depoimento, em alguns momentos utensílios da cozinha teriam sido lavados com sabonete líquido e shampoo infantil por falta de detergente. A testemunha também relatou acúmulo de sujeira e afirmou ter alertado a direção sobre os problemas.
A situação provocou revolta entre os pais, que organizaram uma manifestação em frente à creche nesta segunda-feira (18). Muitos afirmam não ter recebido esclarecimentos diretos da direção. Segundo os responsáveis, algumas crianças permaneciam praticamente o dia inteiro na unidade, de manhã até o início da noite, enquanto as famílias pagavam mensalidades entre R$ 400 e R$ 450 acreditando que os filhos estavam em um ambiente seguro.

Na sexta-feira (15), monitoras apontadas nas denúncias foram levadas à 74ª DP, em Alcântara, para prestar depoimento. Elas foram ouvidas e liberadas.
Procurada, a direção da creche informou, por meio de nota, que não compactua com os fatos relatados e que as funcionárias envolvidas foram afastadas. A unidade afirmou ainda que está à disposição para colaborar com as autoridades, declarou apoio às mães e disse que as providências estão sendo tomadas. A administração também informou que os pais que desejarem o ressarcimento dos valores pagos poderão receber a devolução até sexta-feira, 22 de maio de 2026.
De acordo com a Polícia Civil, o caso foi registrado na 74ª DP. Os agentes analisam imagens e realizam diligências para esclarecer os fatos.
A Prefeitura de São Gonçalo informou que a creche não possui convênio com o município e que acionará o Conselho Municipal de Educação para que medidas sejam adotadas diante das denúncias. O município, no entanto, não esclareceu se a unidade possui registro regular de funcionamento.