Passageiros e motoristas que circulam pelo entorno do Terminal Rodoviário João Goulart, no Centro de Niterói, vivem uma rotina marcada pela insegurança. O motivo é a ocupação do corredor exclusivo de ônibus por pessoas em situação de rua, que passaram a utilizar o espaço — proibido para pedestres — como local de permanência e descanso.
De acordo com relatos, o cenário configura uma tragédia anunciada. Pessoas dormem deitadas sobre canteiros estreitos, muito próximas da pista por onde circulam ônibus em alta frequência. Qualquer movimento em falso pode resultar em uma queda direta na via, com risco de atropelamento. O perigo atinge não apenas motoristas e passageiros, mas principalmente quem já vive em condição de extrema vulnerabilidade.
A cena se repete diariamente e, em alguns momentos, o espaço chega a ficar lotado. “Aqui tem um beiral pequeno, mas esse canteiro é um pouco maior. Por isso a gente fica aqui”, relata uma mulher que vive nas ruas há anos e prefere não se identificar. Ela divide o local com um pequeno grupo de amigos.
Segundo ela, acidentes já aconteceram. Dois integrantes do grupo caíram na pista em diferentes ocasiões. Em uma delas, a ausência de um ônibus no momento da queda evitou uma possível fatalidade. “Esse aqui já é vítima. Graças a Deus nunca aconteceu o pior. Eu mesma já caí e machuquei o braço”, conta, apontando para um homem que dormia no canteiro.
Outra mulher, cadeirante e em situação de rua desde os 12 anos, afirma que não dorme no local por causa de sua condição física, mas permanece próxima dos amigos durante o dia. Ela relata que também já esteve perto de sofrer um acidente. “Teve uma vez que quase caí. O ônibus ia passar por cima de mim”, lembra.
Riscos constantes e rotina improvisada
Além do perigo de queda, o grupo afirma que evita permanecer no local durante a noite devido à presença de ratos. Pela manhã, o canteiro volta a ser ocupado. Parte das pessoas sai para buscar comida, água ou vender mercadorias para garantir a sobrevivência diária.
A rotina, segundo eles, se divide entre o terminal e a frente de uma loja no centro da cidade. A permanência no corredor varia conforme o clima. Em dias de muito calor, o grupo se desloca em busca de sombra e áreas com vegetação para conseguir descansar.
A situação também gera apreensão entre trabalhadores e usuários do terminal. “Tenho medo por eles, de que se machuquem ou aconteça algo pior”, afirma o taxista Jorge Mafra. Já Carlos Marques, também taxista, destaca que o risco se estende a todos. “É uma vida perigosa, inclusive para os pedestres que passam por aqui.”
O que diz a administração do terminal
Responsável pela administração do terminal, a empresa Teroni informou, em nota, que atua em conjunto com a Superintendência de Terminais e Estacionamentos (SUTEN) para minimizar o problema, que classifica como uma questão social presente também em grandes capitais ao redor do mundo.
Segundo a empresa, além do efetivo que atua no local, vêm sendo realizadas ações em parceria com a Secretaria de Assistência Social, por meio do Programa Recomeço, com foco em atendimento humanizado às pessoas em situação de rua.
A Teroni, no entanto, não esclareceu se pretende designar funcionários para orientar o tráfego no corredor de ônibus nem detalhou quais medidas adicionais serão adotadas para garantir a segurança de passageiros, motoristas e das próprias pessoas que ocupam o local.